Atravesso a rua e não olho para trás. Mesmo tendo escutado alguém me chamar eu continuo. O tempo congelou e toda a minha pele pareceu ser desgrudada do corpo em um só segundo. O céu foi avermelhando, rodando e ficando pesado em cima de mim. Não existia cigarro, nem beijo e abraço que me confortassem. Eu era só e somente eu. Nua e desprotegida e vulnerável como quando chorei pela primeira vez. O meu cordão umbilical agora era o medo e o cheiro de pneu queimado que passava do chão para minhas narinas. Maldito salto alto. Maldito dinheiro que ganhei para comprá-lo. Maldito trabalho que faço para ter tal dinheiro. Não existe essa de que passa filme pela cabeça. Na minha só uma imagem. Eu saindo para trabalhar à noite pela primeira vez. O medo era parecido, mas não existia a excitação. Aquela vontade de saber o que me esperava. Dessa vez eu sabia exatamente o que iria encontrar. Nunca havia rolado no chão por um motivo ruim. E agora com todos esses olhos direcionados a mim sem saber o que sou. Se sou homem, mulher, cachorro, galinha. Que importa? Eu sangro vermelho do mesmo jeito.
Então se abaixa, ao meu lado, uma senhora de cabelos vermelhos e pele manchada. Escuta meu coração, senhora. E vê que ainda estou viva aqui dentro. Segura meu pulso esquerdo e sente minha pulsação por trás de toda essa confusão. Meus olhos virados, meus saltos quebrados, minhas unhas pintadas e meu rosto – ainda um pouco masculino – deixando meu segredo exposto. Segredo disfarçado pela manhã e reforçado após o almoço. A senhora ajeita a minha saia, enxuga as minhas lágrimas, passa uma das mãos nos meus cabelos e começa a cantarolar algo que não me lembro. Que não escutei de verdade. Que foi encoberto pela sirene da ambulância e pelo falatório ao meu redor.
Já na ambulância, com todo aquele desespero digno de um filme, descobrem o meu maior problema naquele momento. Três maravilhosas costelas se quebraram e pareciam ter perfurado alguns órgãos. Meu órgãos. Órgãos que pertenciam àquele corpo que não era meu, que eu nunca tinha sido. Que não correspondia, que estava ali para sofrer mais uma vez. Acho que não suporto. Que esgoto antes de chegar ao hospital. Eu sei como sou. E realmente não aguentei. A ultima imagem que vi foi a mulher de cabelos vermelhos sentada ao meu lado. Alisando minha testa e indo aos meu cabelos. Ainda cantando a canção que reconheci e chorei e sorri e amei e quase consegui continuar vivendo. Quando vi já não estava mais. Agora é só uma lembrança que não faz sentido. Uma centena de palavras que não sei de onde vem. Uma cor. Uma mãe que canta. Da cor do parto. Do medo da exclusão. Da dor da descoberta e do engano. O prato quebrado na parede e o beijo na ferida causada pela queda de bicicleta. A toalha molhada em cima da cama. O amor proibido. O beijo escondido. O amor. O amor. Eu que sou ela. Ela que deveria ser ele. Eles que não são definidos. Orgulho. Correr. Língua. Assalto. Um pedaço. E o espaço que deixa o “adeus” não dado.
Então se abaixa, ao meu lado, uma senhora de cabelos vermelhos e pele manchada. Escuta meu coração, senhora. E vê que ainda estou viva aqui dentro. Segura meu pulso esquerdo e sente minha pulsação por trás de toda essa confusão. Meus olhos virados, meus saltos quebrados, minhas unhas pintadas e meu rosto – ainda um pouco masculino – deixando meu segredo exposto. Segredo disfarçado pela manhã e reforçado após o almoço. A senhora ajeita a minha saia, enxuga as minhas lágrimas, passa uma das mãos nos meus cabelos e começa a cantarolar algo que não me lembro. Que não escutei de verdade. Que foi encoberto pela sirene da ambulância e pelo falatório ao meu redor.
Já na ambulância, com todo aquele desespero digno de um filme, descobrem o meu maior problema naquele momento. Três maravilhosas costelas se quebraram e pareciam ter perfurado alguns órgãos. Meu órgãos. Órgãos que pertenciam àquele corpo que não era meu, que eu nunca tinha sido. Que não correspondia, que estava ali para sofrer mais uma vez. Acho que não suporto. Que esgoto antes de chegar ao hospital. Eu sei como sou. E realmente não aguentei. A ultima imagem que vi foi a mulher de cabelos vermelhos sentada ao meu lado. Alisando minha testa e indo aos meu cabelos. Ainda cantando a canção que reconheci e chorei e sorri e amei e quase consegui continuar vivendo. Quando vi já não estava mais. Agora é só uma lembrança que não faz sentido. Uma centena de palavras que não sei de onde vem. Uma cor. Uma mãe que canta. Da cor do parto. Do medo da exclusão. Da dor da descoberta e do engano. O prato quebrado na parede e o beijo na ferida causada pela queda de bicicleta. A toalha molhada em cima da cama. O amor proibido. O beijo escondido. O amor. O amor. Eu que sou ela. Ela que deveria ser ele. Eles que não são definidos. Orgulho. Correr. Língua. Assalto. Um pedaço. E o espaço que deixa o “adeus” não dado.
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