Me ligou, logo após abrir os olhos, dizendo que transbordara durante toda a noite. Os olhos inchados, os lençóis umedecidos e a vista turva. As pontas de cigarro, apagadas por todas as paredes da casa, decoravam os cantos e aromatizavam as peles que por ali foram passando. Pés descalços. Anda até a geladeira e puxa a porta, passando lentamente os olhos por cada pedaço de coisa que finge ali estar. Na ultima prateleira, bem no fundo, encontra o seu grandioso conforto. Puxa uma garrafa e dá um gole longo suficiente para beber mais da metade de seu conteúdo. Cerveja. Cigarro e lágrimas. Voltou para a cama e para seu homem. Seu cheiro, seu toque, seu beijo, seu sexo. Sexo com gosto de fumaça. Aquela que entra nos pulmões e parece se agarrar alí e não querer mais sair. A que você quase tosse e joga pra fora, mas sabe que o efeito, mais tarde, será melhor se manter um pouco mais dentro de si. Minutos depois tudo some. Se mistura, entra, sai, grita, geme. "Arranha as minhas costas e me engole". Me agüenta por um minuto que eu não consigo ser só um. Grita alto meu nome para que eu posso voltar.
Ainda deitados na cama, depois de cinco longos dias de uma vida sem deveres e vontades definidas, se olham. Gritam desesperadamente e da esquerda para a direita uma mão pesada e carregada de força se choca contra um rosto. Barba contra a palma. A palma do barbudo não se cala e lança-se contra a outra face. Tapa não, murro. Murro fechado e certeiro. Quebrando e jorrando sangue do nariz. Chafariz. O sangue espirrado na parede acabou transformado em objeto de decoração. A bochecha ainda latejando e um par de pernas corre até a porta e tranca o quarto. Não existe roupa, apenas umidade, desejo, vontade, fome, dedos queimados, unhas sujas, pernas entrelaçadas, cheiros misturados, prazer, línguas, lábios, pelos. Correm pela casa esbarrando-se nas paredes, fundindo-se nos tapetes, nas mesas, cadeiras.
Vão até o jardim e gritam seus sonhos, seus medos, seus defeitos e fumam a erva da tranqüilidade. Nus, no jardim. Não existe Adão, muito menos Eva. Só serpentes e frutos proibidos. Só desejos a serem desfrutados. Pele, carne, saliva e suor. Bunda, peito, pênis, coxas. Te amo, te odeio. Te bebo e te engulo. Te tenho dentro e jogo fora. E continuo amando depois de tudo. Mesmo que esse amor seja uma criação para que eu possa dizer o que lhe digo. No pé do ouvido, com os dentes no pescoço, cheiro de cigarro e cerveja, velocidade, carona. Não sei. Não dá para saber. Morde o fruto, depois vive.
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